Nos últimos anos temos assistido a um declínio do pastoreio na Europa, que ameaça a sustentabilidade deste tipo de sistemas. Sabemos que os sistemas de produção baseados no pastoreio, têm um enorme potencia para produzir alimentos de alta qualidade, tais como leite e carne com elevados benefícios nutricionais, porém, nos últimos dez anos, a prática de pastoreio diminuiu entre 10 e 20%.
Para contrariar esta tendência, surgiu o projeto Grazing4Agroecology (G4AE), um projeto financiado pela União Europeia (UE), que tem como grande objetivo apoiar os agricultores na implementação de sistemas baseados no pastoreio, como uma prática para o ambiente, animais e sociedade, a fim de produzir alimentos mais saudáveis e sustentáveis, com menor impacto nos recursos naturais. O G4AE tem sido também implementado tendo em consideração os objetivos do Green Deal da UE relativamente ao restabelecimento da biodiversidade, redução das perdas de nutrientes e redução das emissões de Gases com Efeitos de Estufa (GEE).
O projeto é coordenado pelo Grünlandzentrum, na Alemanha, e terá a duração de três anos e meio, desde setembro de 2022 a fevereiro de 2026. O consórcio inclui 18 parceiros de oito estados-membro da UE (Alemanha, França, Irlanda, Itália, Países Baixos, Portugal, Roménia e Suécia) garantindo-se, assim, a representatividade das várias e diferenciadas condições edafoclimáticas na Europa e, consequentemente, um leque de distintas práticas usadas nas diferentes culturas e condições dos países parceiros. A rede temática do projeto baseia-se numa abordagem multi-ator tendo no centro agricultores e grupos de agricultores representativos que trabalham em conjunto com investigação aplicada, aconselhamento/consultoria e indústria. Cada estado-membro criou uma rede de 15 agricultores nacionais, e ainda grupos de jovens-agricultores, de modo a gerar uma network internacional. Em Portugal, o projeto é executado pela CONSULAI e pela Universidade de Évora.
Após os primeiros 18 meses de trabalho, o projeto apresenta já um vasto conjunto de resultados, sendo várias as boas práticas e inovações que a rede de agricultores europeia partilhou. O projeto foca-se em cinco princípios agroecológicos a serem otimizados nos sistemas de produção animal (Dumont et al. 2013): reduzir os fatores de produção, reforçar a diversidade e resiliência, reduzir a poluição, preservar a biodiversidade, e promover o bem-estar animal.
Inicialmente, os agricultores foram convidados a identificar e partilhar as maiores dificuldades e inovações necessárias ao nível do pastoreio nacional. Após priorização da lista, destacaram-se como principais desafios: 1) equilíbrio entre a sustentabilidade económica e ambiental; 2) qualidade do solo e das pastagens; 3) não valorização do mercado a sistemas de produção extensivos; 4) dificuldade de comunicar de forma eficaz; 5) falta de conhecimento por parte dos consumidores; 6) imprevisibilidade climática; 7) apoios desajustados ao montado e a sua diminuição. As principais inovações identificadas foram: 1) maior valorização do pastoreio extensivo; 2) administração pública ouvir o setor e ajuste nos apoios (ex. criação dum programa operacional para o setor da carne); 3) novos técnicas de apoio à gestão; 4) maior disponibilidade e acessibilidade a dados climáticos e cartas de solos; 5) construção de um método para cálculo da capacidade forrageira; 6) procura de novos mercados; 7) informar com rigor e educar os consumidores (melhor comunicação do setor). Estes desafios e inovações estão muito alinhados com que foram identificados noutros países da Europa, o que levou o projeto a criar uma rede de partilha de inovações já existentes no setor do pastoreio que podem ser adaptadas a outros contextos e realidades. Como inovações no setor do pastoreio a nível europeu, destacam-se algumas práticas como o pastoreio rotativo que tem várias vantagens como a melhoria da saúde do solo permitindo a sua regeneração, o aumento da produção de forragem através da recuperação das pastagens, e controlo de pragas e doenças através da interrupção do ciclo de certos parasitas e doenças.
Sobre a sustentabilidade, diversas ideias e inovações foram partilhadas pelos agricultores ao longo dos últimos meses do G4AE. O grande destaque vai para a necessidade de criar e fomentar os apoios financeiros à manutenção da biodiversidade e aos serviços de ecossistema que estes sistemas de produção muitas vezes providenciam e que são “esquecidos”. Na Alemanha, um agricultor consegue manter a sua exploração totalmente em modo de produção biológico e autossuficiente em termos de alimentação animal, através de fundos nacionais dedicados ao apoio de iniciativas sustentáveis, conseguindo assim enriquecer a biodiversidade presente na sua exploração e tornar a sua exploração mais sustentável.
Ao longo desta primeira fase, o projeto já permitiu uma forte partilha de conhecimentos entre toda a network, onde se revelaram práticas, ideias e soluções que serão fundamentais para o desenvolvimento do pastoreio na Europa. Durante os próximos anos, continuarão a ser realizadas sessões de networking para fomentar esta interligação, bem como todo o trabalho de investigação que acompanha o projeto, sempre com o objetivo final de inverter o declínio do pastoreio na Europa, a que temos assistido nas últimas décadas.
O pastoreio extensivo, especialmente de animais ruminantes em pastagens permanentes, é essencial para preservar ecossistemas de elevado valor ecológico, trazendo benefícios como sequestro de carbono, controlo da erosão, preservação e promoção da biodiversidade, e outros. Além disso, a pecuária extensiva desempenha um papel crucial na economia rural, na criação de empregos e na preservação da identidade cultural de Portugal. É assim importante investir em investigação, transferência de conhecimento e políticas públicas para garantir um futuro sustentável para o pastoreio extensivo.