CONSULAI

Artigo
1 de Março de 2023

Como a OBAGAFRUIT agrega a oferta de mirtilo em Viseu

A CONSULAI tem acompanhado a OBAGAFRUIT em vários projetos de investimento no âmbito do Programa de Desenvolvimento Rural (PDR), incluindo medidas dirigidas à exploração agrícola e à transformação e comercialização de produtos agrícolas. Mais recentemente, apoiou a preparação do pedido de reconhecimento como organização de produtores, atualmente em análise.

Nesta entrevista, conversámos com Diogo Oliveira, sócio fundador da OBAGAFRUIT, sobre a origem da empresa, a aposta na produção biológica de pequenos frutos, a agregação da oferta na região de Viseu e os desafios associados ao crescimento, à internacionalização e ao reconhecimento como organização de produtores.

O que o levou a criar a empresa e de onde vem a sua ligação ao mundo dos pequenos frutos?

Rondava o ano 2011 quando surgiu a ideia de rentabilizar a Quinta dos meus pais, localizada em Viseu. Enquanto frequentava a licenciatura em Gestão, decidi realizar um estudo, e concluí que a cultura dos pequenos frutos, nomeadamente a cultura do mirtilo, poderia ser uma oportunidade de negócio extremamente interessante. Em 2013, submeti uma candidatura de Jovem Agricultor, que me permitiu preparar a Quinta para a plantação de mirtilos. Foi quando iniciei a produção e venda deste pequeno fruto, que comecei a sentir as dificuldades de instalar uma cultura nova em Portugal, tais como a falta de conhecimento sobre a mesma, e a falta de players no mercado. Os produtores de mirtilo, são na sua essência, produtores de reduzida dimensão, e assim surge a OBAGAFRUIT, que desde a sua criação, tem como objetivo principal, aglomerar a oferta de mirtilo na região de Viseu.

Como descobriu o potencial da cultura do mirtilo naquela região? Quando somos jovens, temos sempre curiosidade e iniciativa em arriscar em algo novo e diferente. Na região de Viseu, existe um histórico bem enraizado da cultura da vinha e da maçã. Para obter uma rentabilidade atrativa, e dada a dimensão reduzida da Quinta dos meus pais, não se tornava muito viável apostar nestas duas culturas. Foi aí que surgiu a ideia de iniciar a plantação de mirtilo, que nos pareceu bastante interessante e se observava alguma procura. Fomos dos primeiros a iniciar a instalação de mirtilos de produção biológica em Viseu.

Qual é a oferta de produtos da OBAGAFRUIT?

Comercializamos pequenos frutos, nomeadamente bagas de mirtilo, framboesa, fisális, groselha e amora. O nosso core é o mirtilo. No entanto, o mercado da framboesa tem-se expandido muito rapidamente na nossa região.

Qual foi a motivação para investir no Modo de Produção Biológico? A escolha de apostar no modo de produção biológico de mirtilo foi feita logo desde o princípio. Inicialmente, os consumidores de produtos alimentares biológicos eram considerados um nicho de mercado. No entanto, os consumidores estão cada vez mais preocupados e interessados em adquirir alimentos produzidos a partir de modos de produção certificados, que sejam sustentáveis e respeitem o ambiente e o bem-estar dos animais. A OBAGAFRUIT tem apostado no aumento da quantidade de produção biológica, que se tem verificado uma escolha certeira.

A OBAGAFRUIT é uma empresa nacional que nasce da paixão pela agricultura, enraizada há muito na família dos seus fundadores.

Apesar de ter sido criada oficialmente em 2016, a aventura teve início em 2011, com a produção biológica de mirtilos, sendo fundamental a participação e ajuda de amigos e familiares.

Atualmente, a atividade principal da OBAGAFRUIT consiste na comercialização de pequenos frutos, nomeadamente bagas de mirtilo, framboesa, fisális, groselha e amora.

A empresa tem por objetivo produzir e comercializar bagas com a melhor qualidade, assumindo um compromisso com os seus produtores, com os seus consumidores e com o nosso planeta.

Qual é o sistema de condução que utilizam? No futuro, preveem alterar o sistema de condução atual?

Todas as nossas produções são no solo. Neste momento, estamos a realizar testes-piloto para uma condução em vaso para pomares de agricultura convencional. Estes testes estão a ser feitos pela OBAGAFRUIT, que serão depois repercutidos para os restantes produtores e sócios.

Quais são os vossos principais mercados e quais são as principais dificuldades para entrar nos mesmos?

Trabalhamos com o mercado nacional e com alguns retalhistas, que têm crescido bastante no último ano. Dada a nossa dimensão, e por serem frutos bastante cobiçados nos países do centro e do norte da Europa, começámos a exportar, sendo que os nossos principais mercados se encontram em França, Polónia, Holanda e no Reino Unido.

Estes mercados praticam políticas de proteção aos seus produtores locais, e tal pode implicar, que em algum momento, as nossas compras possam ser interrompidas ou minimizadas, por priorizarem comprar localmente.

No ano passado, houve uma antecipação das produções na Europa, por causa do calor.

Dada essa conjuntura, tivemos graves problemas no escoamento da produção, que nos levou a exportar para mercados fora da União Europeia (UE). Estes mercados têm-se demonstrado bastante interessantes e pelos quais queremos evoluir também.

Com a CONSULAI foram submetidas 3 candidaturas no âmbito do PDR, Uma de pequenos investimentos de transformação e comercialização (PDR, 10.2.1.2), um agrícola (PDR, 3.2.1) e outro de transformação e comercialização (PDR, 3.3.1). Em que medida os projetos têm sido importantes para fomentar o crescimento da atividade?

Tenho plena confiança na CONSULAI como entidade consultora, para auxiliar a realização destes projetos, pois têm demonstrado uma boa qualidade de serviço.

A agricultura é uma atividade económica muito volátil. Tanto podemos ter anos fabulosos e muito rentáveis, mas na grande maioria são anos médios ou fracos.

Estes apoios financeiros são imprescindíveis para quem quer investir na agricultura, pois ajudam a minimizar os riscos acrescidos.

Para um produtor comum, iniciar um projeto da estaca zero e com capitais próprios é muito árduo e desafiante, particularmente na região de Viseu, com terrenos de declives acentuados, e alguns completamente abandonados.

Estes apoios têm ajudado a manter muitos negócios.

Os apoios são suficientes? Que críticas aponta?

Após candidatar-me a algumas medidas, a maior crítica que aponto é o aumento do nível de exigência em processos burocráticos.

Aquando da submissão do projeto de Jovem Agricultor, consegui focar-me no projeto e no negócio, e não me centralizei tanto nas “burocracias”, como atualmente se verifica. Estas imposições levamnos a despender muito tempo, e por vezes, envolvem muitas entidades, que não nos conseguem responder atempadamente, o que acaba por atrasar todo o processo.

Sugiro simplificar este requisito, por exemplo, o promotor poderia assinar um termo de responsabilidade que garanta o cumprimento de todas as obrigações e legislação em vigor.

como também fomentar a nossa relação com os produtores. Para atingir um produto de excelência, precisamos também de satisfazer as necessidades e expectativas do produtor, para que ele consiga também sentir a nossas dificuldades enquanto entidade comercializadora.

Pretende realizar mais projetos no futuro?

Assim que o reconhecimento de Organização de Produtores for aprovado, pretendemos avançar para a submissão do Programa Operacional.

Estamos a crescer muito rápido, com necessidade constante de investir para dar resposta à procura verificada. Queremos continuar a investir na exploração agrícola e na transformação e comercialização dos pequenos frutos, para continuarmos a expandir.

Após estabilizarmos, e garantirmos que estamos devidamente capacitados para aumentar a nossa oferta de produtos, procuramos aumentar a escala, bem como a nossa carteira de clientes e, apostar de forma mais constante na Internacionalização.

que houvesse uma centralização da entidade de tomada de decisão, para garantir uma maior uniformidade nas exigências.

Que medidas poderiam estimular e facilitar a agregação e o aumento da escala da produção em Portugal?

Era importante haver uma agregação, não só dos produtores, mas também das entidades comercializadoras, para aumentar a valorização dos produtos portugueses. A OBAGAFRUIT focase em satisfazer as necessidades dos seus clientes, apresentando um produto com a melhor qualidade. Portugal, enquanto país “minúsculo”, precisa de diferenciar os seus produtos, e acredito que isso só é possível ao apresentar um produto de excelência e reconhecido. Acredito que na fileira dos frutos, legumes e hortícolas, esse poderá ser o nosso segredo.

As entidades comercializadoras precisam de reunir e estabelecer requisitos durante toda a cadeia, tais como, a garantia dos cadernos de encargo, para alcançar a qualidade pretendida.

Quais são os objetivos para a OBAGAFRUIT a médio e longo prazo?

Pretendemos continuar a apostar na qualidade dos nossos produtos, Qual foi a motivação para constituir uma organização de produtores (OP)?

Desde há muito que a OBAGAFRUIT se comporta como uma OP não reconhecida.

Inicialmente, começamos a trabalhar com produtores, de forma muito rudimentar. Temos evoluído, e neste momento colaboramos em exclusividade com cerca de 60 produtores de pequenos frutos, divididos entre produção biológica e convencional. Foi criado um departamento técnico que lhes fornece apoio em todas as fases da cultura. Esta associação permite aumentar a oferta de pequenos frutos na região, como também conseguir escala para aliciar grandes mercados.

Neste momento, estamos a estabilizar a nossa estrutura e a nossa produção, como também estamos focados em consolidar a nossa relação com os produtores, pois acreditamos que o nosso potencial é muito grande.

Em novembro de 2022, foi entregue o processo de reconhecimento de Organização de Produtores.

Que benefícios e dificuldades tem sentido num modelo assente na organização da produção?

Após a aprovação do reconhecimento, pretendemos expandir o número de produtores, reforçar o acompanhamento técnico e aumentar a capacidade de negociação da organização. A escala é essencial para valorizar melhor o produto, garantir regularidade na oferta e consolidar relações comerciais mais estáveis.

Como proposta de melhoria, sugeria que houvesse uma centralização da entidade de tomada de decisão, para garantir maior uniformidade nas exigências e reduzir atrasos associados à articulação entre diferentes organismos.