No dia a dia, somos expostos a um elevado volume de informação, da qual apenas parte é selecionada. Esse processo de receção e seleção ‒ por vezes caótico, por vezes seletivo desencadeia a formulação de uma perceção. A formulação de uma perceção é um processo complexo, através do qual selecionamos, organizamos, interpretamos e reagimos à informação recebida. É a perceção que nos permite dar sentido ao que nos rodeia ou, pelo menos, convencermo-nos disso.
Durante uma viagem de carro, por exemplo, recebemos diversos estímulos: a velocidade no velocímetro, a sinalização, o movimento dos outros veículos. Podemos, num dado momento, concentrar-nos na leitura do velocímetro. A perceção daí resultante ‒ constatar que excedemos o limite leva-nos, idealmente, a abrandar. Trata-se de um exemplo de perceção bottom-up, isto é, obtida pela experiência direta.
Agora imaginemos que ouvimos um amigo dizer: Ia a 120 numa zona de 50. Mesmo sem estarmos lá, reconhecemos o excesso de velocidade ‒ não pelo que vimos, mas pelo que nos foi dito. Eis um exemplo de perceção top-down, obtida através de uma interação social.
É assim que muitos portugueses constroem a sua perceção sobre agricultura e floresta: não pelo que veem, mas pelo que ouvem. Num país em que três quartos da população vive longe desses contextos, a perceção do mundo rural é mediada ‒ sobretudo por interações sociais e pelos meios de comunicação social.
Para compreendermos como se constrói a perceção da população portuguesa sobre a agricultura e a floresta, é necessário recuar ao início do processo: à forma como a informação é selecionada, organizada e interpretada nos dois principais canais de mediação ‒ as interações sociais e os meios de comunicação. A Teoria do Agenda-Setting, proposta por McCombs e Shaw, oferece pistas relevantes.
Duas ideias centrais:
• Priorização Temática: Os media não nos dizem o que pensar, mas influenciam sobre o que pensar.
• Contágio Discursivo: O que é noticiado torna-se conversável. E o que é conversável, alastra.
Os meios de comunicação moldam o foco da atenção pública ao destacar certos temas e relegar outros para segundo plano. Isto não implica manipulação implica escolha. E toda a escolha é, também, uma renúncia. Os temas mais visíveis tornam-se mais pensados, discutidos, amplificados. O cidadão é livre de formar opinião ‒ dentro do menu disponível.
Mesmo sem dados exatos sobre o volume de cobertura mediática por tema, podemos inferir tendências através dos interesses da população. O Digital News Report Portugal 2024, produzido pelo OberCom e pelo Reuters Institute, indica que mais de 40% dos inquiridos revelam interesse por política, saúde, atualidade local, regional e internacional o que sugere que estes são, muito provavelmente, os assuntos com maior destaque nos meios de comunicação social.
Segundo a Teoria do Agenda-Setting, a simples publicação de uma notícia é um ponto de ignição. A informação circula, é comentada, partilhada, amplificada por vozes públicas. Torna-se perceção coletiva. O Digital News Report Portugal 2024 mostra que um quarto da população portuguesa afirma partilhar conteúdos noticiosos através de aplicações de mensagens, como o WhatsApp, e integrá-los em conversas do dia a dia com amigos ou colegas.
A Teoria do Framing, de Erving Goffman, permite aprofundar esta análise. Trata-se do enquadramento – das lentes através das quais a informação é apresentada. A seleção de palavras, imagens, fontes e contextos define o sentido atribuído à notícia. O Framing orienta a perceção, mesmo quando se proclama neutralidade.
Veja-se a peça publicada pela Agência Lusa em 2022: Maçãs e Peras Portuguesas Entre Frutas Com Mais Pesticidas, Revela Estudo Europeu. A construção da manchete e a linguagem usada ‒ cocktails químicos, fruta contaminada, doenças graves ‒ induzem uma perceção de ameaça. O enquadramento é alarmista.
A notícia omite se os níveis detetados estão ou não dentro dos limites legais da União Europeia. Também não esclarece se se trata de casos pontuais ou representativos. Em 2022, 96% dos produtos agrícolas europeus estavam dentro dos limites permitidos. O silêncio sobre estes dados distorce a perceção pública.
Além disso, a escolha de uma única fonte ‒ uma organização ambiental ‒ sem confronto com outras perspetivas consolida um enquadramento enviesado. A ausência de pluralismo debilita o pensamento crítico e fomenta leituras unilaterais.
O B-RURAL é uma iniciativa dinamizada pela CONSULAI ‒ com o apoio de várias associações setoriais ‒ que tem como objetivo promover a comunicação eficaz e estratégica da agricultura e da floresta. Para que esta missão seja bem sucedida, é fundamental compreender como se formam as perceções ‒ e atuar sobre esse processo de forma consciente:
• A perceção é mediada ‒ e, por isso, exige presença ativa. A maioria da população não vive o setor agrícola ou florestal de forma direta. As suas opiniões constroem-se a partir do que leem, ouvem e comentam. Quando o setor está ausente desses espaços, a narrativa é contada por outros ‒ muitas vezes com agendas, ângulos ou desconhecimento. Estar fora da comunicação é abdicar de participar na definição da imagem pública da agricultura e da floresta.
• O conteúdo deve entrar pela porta certa. As pessoas não procuram, de forma espontânea, notícias sobre agricultura ou floresta ‒ mas interessam-se por política, saúde, ambiente, economia ou alimentação. É nesses temas que o setor deve surgir, com relevância e pertinência.
• Por fim, o enquadramento é tão decisivo quanto o conteúdo. As palavras escolhidas, as imagens utilizadas, as fontes citadas e o tom adotado moldam profundamente a perceção coletiva.
O B-RURAL é uma oportunidade concreta para reforçar a presença, a relevância e a legitimidade da agricultura e da floresta no espaço público. Contar bem a história destes setores é, hoje, uma forma de os proteger e projetar no futuro