CONSULAI

EU AgRI 2040: A inovação europeia conseguirá finalmente chegar ao terreno?

Da investigação à adoção: os desafios e oportunidades da nova estratégia europeia para a agricultura, floresta e zonas rurais

Nos dias 24 e 25 de setembro de 2026, Bruxelas acolheu a conferência EU AgRI 2040, um evento organizado pela Directorate-General for Agriculture and Rural Development (DG AGRI) da Comissão Europeia para discutir o futuro da investigação e inovação (I&I) nos setores agrícola, florestal e rural na Europa. A conferência surgiu na sequência da publicação da nova Strategic Approach to Research and Innovation for Agriculture, Forestry and Rural Areas, que pretende orientar as prioridades europeias de I&I para o período pós-2027.

A participação da CONSULAI foi particularmente relevante, na sequência do convite dirigido ao projeto AdvisoryNetPEST, que coordena e que representou as redes europeias de aconselhamento agrícola durante a conferência. Neste âmbito, Dina Lopes, Diretora de Investigação e Inovação da CONSULAI, apresentou a comunicação“Empowering Change: How Advisory Networks Accelerate Uptake by End Users”, destacando o papel das redes de aconselhamento na promoção da adoção de inovação pelos utilizadores finais. A relevância da presença da CONSULAI no evento foi ainda reforçada pela participação de diversos projetos europeus em que a empresa está envolvida, evidenciando o papel crescente das redes de inovação colaborativa na aceleração da transferência de conhecimento, na criação de soluções mais próximas das necessidades do terreno e na transformação sustentável do setor agroalimentar.

Mais do que apresentar novas prioridades temáticas, a conferência colocou no centro do debate uma questão decisiva: a Europa não precisa apenas de mais inovação. Precisa de assegurar que a inovação chega efetivamente ao terreno em soluções que gerem valor económico e produzam impacto duradouro para agricultores, empresas e comunidades rurais.

A Europa produz conhecimento de excelência.

Como garantir que a inovação europeia não fica esquecida nos relatórios e passa a gerar impacto real no terreno?

O principal desafio: tirar a inovação do papel e transformar conhecimento em adoção

Um dos temas mais recorrentes da conferência foi a distância (o “gap”) que ainda separa a investigação da aplicação prática, sobretudo quando chega o momento de testar, demonstrar, escalar e comercializar novas soluções.

Embora a Europa tenha investido milhares de milhões de euros em investigação no setor agrícola e florestal nas últimas décadas e desenvolvido centenas de projetos inovadores, continua a existir dificuldade em converter resultados científicos em soluções amplamente adotadas pelos utilizadores finais no setor agrícola, florestal e rural.

O Comissário Europeu para a Agricultura e Alimentação, Christophe Hansen, sublinhou que o valor da inovação não deve ser medido pelo número de projetos financiados ou artigos publicados, mas sim pela diferença que provoca nas explorações agrícolas, permitindo aos agricultores tomar melhores decisões, aumentar a sua competitividade e reforçar a sua resiliência face às alterações climáticas e à volatilidade dos mercados.

A mensagem foi reforçada por diversos intervenientes que destacaram que a inovação só faz sentido quando é adotada. A estratégia AgRI 2040 procura precisamente acelerar este processo, promovendo uma maior ligação entre investigação, aconselhamento, demonstração e implementação prática.

Três ambições estratégicas, uma urgência: acelerar o impacto

A nova abordagem AgRI 2040 estrutura-se em torno de três grandes ambições:

  1. Desenvolver e acelerar a implementação de novas tecnologias

A primeira prioridade consiste em reduzir o intervalo entre a geração de conhecimento e a sua aplicação prática, frequentemente descrito como o percurso “from lab to fab”.

Neste contexto, a Comissão Europeia pretende facilitar a participação de PME e startups nos programas de investigação, criar melhores condições para testar soluções em ambientes reais, promover investimento público e privado e acompanhar os inovadores ao longo de todo o ciclo de desenvolvimento das tecnologias, incluindo o “scale-up” dos resultados obtidos.

O desafio assume especial relevância num momento em que a Europa procura competir com ecossistemas de inovação mais ágeis, como o norte-americano, onde a entrada de novas soluções no mercado ocorre frequentemente de forma mais rápida.

Neste contexto, Bill Callanan, Chief Agricultural Scientist do Department of Agriculture, Food and Marine da Irlanda, deixou uma das mensagens mais marcantes da conferência: a inovação exige maior apetência para o risco. Se a Europa pretende acelerar a chegada de novas soluções ao mercado e ao terreno, terá de criar mais oportunidades para experimentar, testar e validar tecnologias em condições reais, aceitando que nem todas as iniciativas serão bem-sucedidas. A capacidade de aprender rapidamente com os sucessos e os fracassos foi apontada como um fator crítico para reforçar a competitividade e acelerar a inovação no setor agroalimentar.

  1. Disseminar e escalar soluções inovadoras

A segunda ambição reconhece que comunicar resultados é apenas o início: o verdadeiro objetivo é criar condições para que as soluções sejam compreendidas, testadas, adaptadas e adotadas.

Ao longo da conferência ficou claro que a simples divulgação de resultados não garante a sua utilização. A adoção exige processos de co-criação com agricultores, demonstração em condições reais, capacitação contínua e apoio técnico especializado.

Neste contexto, os Living Labs foram destacados como instrumentos particularmente relevantes para aproximar a investigação da realidade produtiva. Ao permitirem desenvolver, testar e demonstrar soluções em condições reais, com a participação de agricultores, investigadores, empresas e outras entidades do ecossistema de inovação, criam um espaço de aprendizagem, validação e adaptação conjunta. Esta abordagem é especialmente importante num setor em que a confiança e a aprendizagem entre pares influenciam a adoção: os agricultores valorizam a possibilidade de observar como as soluções funcionam noutras explorações e de compreender os seus benefícios antes de as integrar nas suas próprias práticas

Foi precisamente neste contexto que o papel dos sistemas de aconselhamento, redes de conhecimento e mecanismos de transferência de inovação recebeu especial destaque. Vários intervenientes sublinharam a importância destas estruturas como ponte entre a investigação e a prática, facilitando a transformação do conhecimento científico em soluções aplicáveis, adaptadas às realidades produtivas, territoriais e socioeconómicas dos agricultores.

A experiência do projeto AdvisoryNetPEST foi referida como exemplo da importância das redes de aconselhamento na aceleração da adoção de práticas inovadoras para a redução do uso e risco de pesticidas e na partilha de conhecimento entre agricultores.

  1. Antecipar hoje os riscos de amanhã

A terceira ambição pretende garantir que a investigação responde aos grandes desafios que o setor enfrentará na próxima década. Entre as áreas prioritárias identificadas encontram-se:

  • Sistemas agrícolas resilientes às alterações climáticas;
  • Gestão da água e adaptação à escassez hídrica;
  • Florestas multifuncionais;
  • Sistemas pecuários sustentáveis;
  • Desenvolvimento rural;
  • Cadeias de valor agroalimentares mais robustas;
  • Digitalização, inteligência artificial e robótica;
  • Saúde do solo, biodiversidade e economia circular.

Como salientou James Morrison, da Direção-Geral da Investigação e Inovação da Comissão Europeia, é necessário pensar “to the farm gate and beyond”. A inovação deve ultrapassar os limites da exploração agrícola e gerar impacto ao longo de toda a cadeia agroalimentar, desde a produção até à transformação, distribuição e consumo. Esta visão esteve na base da aproximação entre as agendas AgRI 2040 e Food 2040.

Estas prioridades refletem uma visão integrada da cadeia agroalimentar, articulada também com a iniciativa Food 2040, reconhecendo que os desafios da agricultura não podem ser dissociados do processamento alimentar, dos consumidores, dos mercados e dos territórios rurais. 

Da ambição à execução: os bloqueios que persistem

Apesar do otimismo gerado pela nova estratégia, vários desafios que continuam por resolver emergiram de forma recorrente durante os debates.

O primeiro relaciona-se com a necessidade de simplificar e acelerar os processos de inovação, reduzindo barreiras regulatórias e facilitando a transferência de conhecimento entre Estados-Membros.

Um segundo desafio prende-se com o financiamento – a procura atual pelos programas europeus de investigação ultrapassa largamente os recursos disponíveis, com taxas de sucesso muito reduzidas em alguns concursos. Esta situação dificulta a concretização de muitas iniciativas com elevado potencial de impacto.

Por fim, destacou-se a necessidade de reconhecer e remunerar adequadamente o contributo dos agricultores para os processos de inovação. Os agricultores não fornecem apenas terrenos para ensaios; contribuem com conhecimento, experiência, dados e validação prática das soluções desenvolvidas. 

Oportunidades para Portugal e para os ecossistemas de inovação: ligar conhecimento, investimento e território

Entre os desafios identificados, a gestão da água destacou-se como uma das maiores preocupações para o futuro da agricultura europeia, refletindo a crescente pressão das alterações climáticas sobre os sistemas produtivos.

A EU AgRI 2040 abre uma oportunidade para Portugal reforçar a ligação entre investigação, experimentação, aconselhamento, empresas e territórios. Num setor marcado pela diversidade de sistemas produtivos e por desafios como a escassez de água ou as alterações climáticas, esta articulação será determinante para adaptar soluções inovadoras europeias às necessidades concretas do país.

O futuro da inovação agrícola europeia dependerá cada vez mais da capacidade de trabalhar em rede.

 A integração entre investigação, aconselhamento, educação, empresas, agricultores e decisores políticos foi apresentada como condição essencial para acelerar a transição para sistemas agroalimentares mais resilientes e competitivos.

Para Portugal, e para todos os atores envolvidos nos ecossistemas de inovação agrícola, a AgRI 2040 representa uma oportunidade para reforçar a ligação entre investigação, experimentação, aconselhamento e adoção. A concretização desta visão dependerá da capacidade de acelerar a transferência de conhecimento, validar soluções em contexto real e promover a sua aplicação efetiva pelos agricultores, empresas e restantes agentes da cadeia de valor.

Mais do que financiar novos projetos, será necessário garantir que o conhecimento gerado é testado, validado, adaptado e efetivamente utilizado. Só assim será possível transformar inovação em competitividade, resiliência e criação de valor para o setor agroalimentar.

Organizações como a CONSULAI, que atuam na interface entre investigação, inovação e transferência de conhecimento, terão um papel fundamental para assegurar que as soluções desenvolvidas não ficam esquecidas nos relatórios dos projetos nacionais ou internacionais, mas chegam efetivamente ao terreno, geram valor e contribuem para a transformação do setor.

A conferência EU AgRI 2040 deixa uma mensagem final simples, mas exigente: a inovação não termina quando um projeto termina.

O verdadeiro valor e sucesso da inovação mede-se pela sua capacidade de continuar a gerar impacto, ganhar escala, criar benefícios económicos, ambientais e sociais, e ser adotada pelos seus agentes do setor agroalimentar muito depois do financiamento inicial terminar.

Carolina Ramos | Coordenadora de Inovação e Investigação