Não temos, na cidade, bem noção do quanto a agricultura evoluiu nos últimos anos. O setor modernizou-se muito e cabe-nos torná-lo mais atrativo para os jovens recém-formados. A tecnologia permite novas funcionalidades que tornam o setor mais desafiante para quem quer desenvolver projetos e soluções inovadoras.
A imagem do setor tem que mudar junto do público urbano. Chegados ao supermercado, damos por adquirido que os produtos estarão lá, disponíveis, e serão seguros para consumo, mas não supomos o que está por trás dessa disponibilidade. Quantos de nós terão sequer consciência da origem do produto que consumimos?
Estamos tão seguros da qualidade do produto, que as razões para a nossa escolha não se prendem propriamente à funcionalidade do produto. Importa agora que a produção não comprometa a sustentabilidade dos recursos, que cumpra preceitos éticos como o bem-estar dos animais, assegure a justa remuneração das comunidades na origem, e que a marca projete uma postura de responsabilidade social.
Perante esta pressão, e num contexto económico particularmente duro, o instinto de produtor agrícola tem-no levado a clamar por um maior reconhecimento da importância da sua produção agrícola. Mas nas cidades, com a necessidade básica tão facilmente assegurada, essa abordagem terá um efeito prático limitado.
DESAFIOS Novos desafios da comunicação em Agricultura Um caminho de maior retorno será o da aposta na valorização efetiva dos seus produtos, sobretudo se esta valorização abraçar os parâmetros atuais de avaliação do consumidor final. Olhando para o mercado, os casos de maior sucesso hoje são os que investem no cuidado da produção, nos processos e na respetiva certificação apresentando-se no mercado com todos os predicados.
Tendo estes em conta estaremos a promover a preferência do consumidor.
O passo maior que talvez nos falte ainda dar é o da criação de mais marcas. Somos melhores produtores do que promotores. Talvez por isso, Portugal vem atraindo investidores internacionais, impressionados com a nossa capacidade de produzir tão bem, em categorias como o vinho, o azeite, os cereais ou os frutos. Haverá uma tendência para nos posicionarmos/contentarmos com os setores intermediários. Está na hora de darmos o passo que falta em direção ao cliente final. Tal passa por não relegar a sua comercialização a terceiros.
O que é comercializar os produtos? É ir além da qualidade direta do produto e da experiência associada pensando também na perceção que o produto evoca. Um logotipo ajuda, mas o que fará a diferença é o significado que lhe atribuirmos. A comunicação cumprirá aqui um papel determinante. Ajudará a posicionar o produto agrícola e ajudar o seu comprador a encontrá-lo e a desejá-lo.
Importa também ao setor agrícola que se atualize mais no mundo moderno da comunicação. Com as ferramentas do digital, o produtor passou a ter um canal direto ao consumidor. Utilizando estas ferramentas é possível atingir novos consumidores e com as mensagens que nos interessam. Não estamos dependentes dos intermediários para destacarem os nossos produtos.
Mas, o digital também trouxe um maior destaque a alguns grupos de interesses especiais que divulgam as suas mensagens que muitas das vezes prejudicam a agricultura. Esses grupos utilizam bem as redes sociais e tornam relevante as suas mensagens. É importante que a agricultura como um setor também saiba comunicar melhor nestes meios, divulgando as suas opiniões e valorizando os seus pontos de vista. O nosso setor deve passar a ser mais pró-ativo e menos reativo. A boa comunicação depende de quem domina a narrativa e esse domínio deve ser dos agricultores e do setor.
Há um longo caminho a fazer, mas algumas dessas necessidades estão em marcha. Há uma maior consciência quanto à comunicação e há bons exemplos em curso. Devemos cada vez mais deixar de ser o setor esquecido e passar a estar presente na comunicação que chega aos nossos consumidores. A agricultura tem um importante contributo para a economia nacional e deve clamar pelo lugar que é seu por direito próprio.
Comunicar é preciso.