A Cooperativa Pingo de Leite reúne pequenos produtores e assegura a concentração, a recolha e a comercialização do leite dos seus associados. Com o apoio da CONSULAI, concretizou duas candidaturas ao Programa de Desarrollo Rural (PDR), que permitiram reforçar a frota, internalizar a logística e aumentar a capacidade negocial.
En esta entrevista, Pedro Pimenta explica o modelo de funcionamento da cooperativa, o impacto dos investimentos apoiados e a importância da organização de produtores para valorizar o leite e melhorar o rendimento dos associados.
Pode explicar de forma breve o que é a Cooperativa Pingo de Leite?
A Cooperativa Pingo de Leite, nasceu em 2016, pela vontade de cerca de 50 pequenos produtores de leite, que se agregaram para formar esta cooperativa e que, posteriormente, obteve o reconhecimento como organização de produtores (OP).
Atualmente a OP faz a concentração do leite produzido pelos seus sócios, ou seja, organiza toda a logística de recolha de leite nos produtores, e coloca-o no mercado, nas várias indústrias. São nossos clientes, indústrias como o iogurte, leite ultra-alta temperatura (UHT), queijo, leite concentrado, e comercializamos algum leite em Espanha, portanto temos uma panóplia de clientes onde procuramos a maior valorização do leite, para pagar o melhor possível, ao agricultor/sócio da OP.
Assim sendo, a cooperativa não tem instalações e o leite vai do produtor diretamente para o cliente?
Exatamente. O leite tem esta particularidade que, depois de sair da vaca, quanto mais rápido chegar ao industrial, melhor. Portanto, termos instalações para concentrar produto e fazer outro tipo de operações não está no nosso foco. Temos uma frota de veículos que fazem vários roteiros de recolha e que entregam no cliente, sendo nosso objetivo fazê-lo num intervalo de tempo de 10-12 horas entre a hora que sai do produtor até que chega à fábrica. O mais curto espaço de tempo possível para termos a melhor qualidade de leite possível.
Esses 50 produtores produzem quanto leite, em média?
Temos mais de 20 milhões de litros de leite por ano.
Somos uma pequena cooperativa, muito leve, com uma colaboradora administrativa e dois técnicos de campo que, além de tratarem de toda esta logística, fazem o acompanhamento técnico junto dos produtores no âmbito da qualidade e das análises necessárias. O leite de vaca é o produto alimentar mais escrutinado. Por cada recolha feita no produtor, diária ou em dias alternados, é retirada uma amostra analisada no Associação Interprofissional do Leite e Lacticínios (ALIP), o laboratório interprofissional. A cada entrega de leite na fábrica, é recolhida nova amostra e feita nova análise. Na fábrica, o leite é encaminhado para um depósito e, antes de entrar em produção, é feita nova análise; após a pasteurização, também. Existe, assim, uma cadeia de controlo da qualidade do leite desde a origem, mantendo a rastreabilidade, que é fundamental e que não se vê noutro tipo de produtos com a mesma incidência. A Cooperativa Pingo de Leite faz esse acompanhamento técnico da qualidade e apoia a resolução de problemas que o produtor possa ter em determinados momentos. É com base no resultado destas análises que a cooperativa classifica o leite produzido por cada produtor e, no final do mês, valoriza o leite entregue mediante a respetiva qualidade.
A CONSULAI elaborou e acompanhou duas candidaturas à medida 10.2.1.2 hacer Programa de Desarrollo Rural (PDR) para a C. Pingo de Leite, uma aprovada em 2019 e outra em 2023, que totalizaram um apoio de praticamente 163 000 euros.
Em que consistiram estes dois projetos?
Esses 2 projetos visavam essencialmente dotar a empresa de uma frota que desse resposta às necessidades de recolha do leite nos nossos produtores e colocasse no destino, no mais curto espaço de tempo. Antes dos projetos estávamos dependentes de prestações de serviços para esta logística. Portanto os projetos consistiam na aquisição de cisternas e camiões para a recolha, bem como para medidores para fazer a medição eletrónica do leite durante a sua recolha, o que nos permite ter uma logística e capacidade de trabalho que não tínhamos anteriormente.
De que forma a concretização destes dois projetos impactou a atividade da cooperativa?
Foram fundamentais para a concretização dos objetivos da cooperativa. Facilitou a concretização do investimento com um menor esforço financeiro da cooperativa, o que nos permite melhorar o apoio aos produtores, pagando o leite a um melhor preço. Além disso, criá- mos 4 postos de trabalho com esses 2 projetos, sempre na tentativa de fecharmos o circuito entre a recolha no produtor e colocação na indústria.
Se não tivessem obtido estes apoios, que desafios teriam enfrentado?
Tinha sido tudo muito mais difícil porque tínhamos que continuar a nos socorrer de serviços externos para fazer este trabalho logístico, sendo que os serviços externos não tinham a qualidade que nós pretendíamos. Ao trabalharmos com um produto, com grau de exigência como o leite, em que a valia negocial está intimamente ligada com qualidade do produto, só assegurando uma logística de recolha e entrega de qualidade e eficiente, é que se ganha a capacidade negocial. Assim, estes projetos foram bons em todos os sentidos. Deu-nos essa garantia de não estarmos dependentes de terceiros e um rigor e a qualidade do serviço muito mais elevada.
Foram essenciais!
Houve impacto nos resultados financeiros por terem passado a controlar o processo?
Esse é o nosso desafio diário: tentar sempre valorizar o leite ao máximo. Mas o leite tem muitas particularidades.
É um produto um bocadinho sazonal e é muito influenciado pelo mercado externo. O fim do inverno e a primavera, altura em que, pelo ciclo natural, as vacas produzem mais leite, são sempre momentos difíceis porque há uma oferta maior do que a procura. Mas depois, durante o verão e o outono, temos uma fase boa, onde a capacidade negocial aumenta. Assim, o que a Cooperativa Pingo de Leite procura é estar no mercado o maior tempo possível e trabalhar com players muito diversos, não ficando dependentes nem do leite UHT, nem dos iogurtes nem do queijo. Procuramos ter uma carteira de clientes que permita escoar o leite ao longo de todo o ano, consoante a procura de cada um. Mantendo a cooperativa com uma estrutura leve, permite-nos, ao final do mês, termos um preço médio de pagamento do leite mais interessante.
Obviamente, que os produtores gostariam que o preço fosse superior, mas o setor é o que é, e no final o nosso trabalho tem corrido bem. Estes dois projetos ajudaram-nos a criar esta capacidade negocial, e trouxeram-nos uma segurança que não tínhamos anteriormente. Foram dois projetos muito importantes que nos permitem continuar a trabalhar para o futuro.
Que aspetos foram mais relevantes para o sucesso destas duas candidaturas?
Eu acho que o ponto de partida em si, como era uma cooperativa recente e pequena, não havia nada para correr mal. Era un proyecto genuíno, um agrupamento de 50 famílias de produtores de leite pequena dimensão que queriam estar organizados e queriam valorizar ao máximo o seu produto. Ou seja, havia todos os ingredientes para os projetos correrem bem.
Executaram o que estava previsto ou tiveram de fazer pedidos de alteração?
Sim, executamos o que tínhamos previsto. A cooperativa tinha um diagnóstico das suas necessidades bem feito, e sabíamos bem aquilo que era necessário para atingirmos os objetivos. Não foi necessário fazer qualquer alteração ao projeto.
O peso burocrático destes projetos foi uma dificuldade?
Acho que não. Acho que nesse assunto o corpo técnico da CONSULAI foi fundamental para essa gestão.
A assessoria técnica que vocês facultaram ao longo de todo o processo de desenvolvimento dos projetos foi imprescindível. Nós somos agricultores, somos produtores de leite, somos gente simples, que tem de estar bem assessorada. A forma de estar bem assessorada é acreditar num corpo técnico que nos possa ajudar a responder às dificuldades que aparecem. Mas no final, não sentimos dificuldades de maior. Acho que foi un proceso pacífico, muito bem apoiado pela CONSULAI.
ENTREVISTA Cooperativa Pingo de Leite, Pedro Pimenta