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Artículo
1 de marzo de 2025

A agricultura não mora na cidade, mas é lá que se opina sobre ela

Joaquim Nogueira Cabral

No dia a dia, somos expostos a um elevado volume de informação, da qual apenas parte é selecionada. Esse processo de receção e seleção, por vezes caótico, por vezes seletivo, desencadeia a formulação de uma perceção. A formulação de uma perceção é un proceso complexo, através do qual selecionamos, organizamos, interpretamos e reagimos à informação recebida. É a perceção que nos permite dar sentido ao que nos rodeia, ou, pelo menos, convencermo-nos disso.

Durante uma viagem de carro, por exemplo, recebemos diversos estímulos: a velocidade no velocímetro, a sinalização e o movimento dos outros veículos. Podemos, num dado momento, concentrar-nos na leitura do velocímetro. A perceção daí resultante, constatar que excedemos o limite, leva-nos, idealmente, a abrandar. Trata-se de um exemplo de perceção bottom-up, isto é, obtida pela experiência direta.

Agora imaginemos que ouvimos um amigo dizer: “Ia a 120 numa zona de 50.” Mesmo sem estarmos lá, reconhecemos o excesso de velocidade, não pelo que vimos, mas pelo que nos foi dito. Eis um exemplo de perceção top-down, obtida através de uma interação social.

É assim que muitos portugueses constroem a sua perceção sobre agricultura e floresta: não pelo que veem, mas pelo que ouvem. Num país em que três quartos da população vive longe desses contextos, a perceção do mundo rural é mediada sobretudo por interações sociais e pelos meios de comunicação social.

Para compreendermos como se constrói a perceção da população portuguesa sobre a agricultura e a floresta, é necessário recuar ao início do processo: à forma como a informação é selecionada, organizada e interpretada nos dois principais canais de mediação, as interações sociais e os meios de comunicação. A Teoria do Agenda-Setting, proposta por McCombs e Shaw, oferece pistas relevantes.

Duas ideias centrais ajudam a compreender este processo:

  • Priorização temática: os media não nos dizem o que pensar, mas influenciam sobre o que pensar.

  • Contágio discursivo: o que é noticiado torna-se conversável. E o que é conversável alastra.

Os meios de comunicação moldam o foco da atenção pública ao destacar certos temas e relegar outros para segundo plano. Isto não implica manipulação, implica escolha. E toda a escolha é, também, uma renúncia. Os temas mais visíveis tornam-se mais pensados, discutidos e amplificados. O cidadão é livre de formar opinião, dentro do menu disponível.

Mesmo sem dados exatos sobre o volume de cobertura mediática por tema, podemos inferir tendências através dos interesses da população. O Digital News Report Portugal 2024, produzido pelo OberCom e pelo Reuters Institute, indica que mais de 40% dos inquiridos revelam interesse por política, saúde, atualidade local, regional e internacional, o que sugere que estes são, muito provavelmente, os assuntos com maior destaque nos meios de comunicação social.

Segundo a Teoria do Agenda-Setting, a simples publicação de uma notícia é un punto de ignição. A informação circula, é comentada, partilhada e amplificada por vozes públicas. Torna-se perceção coletiva. O mesmo relatório mostra que um quarto da população portuguesa afirma partilhar conteúdos noticiosos através de aplicações de mensagens, como o WhatsApp, e integrá-los em conversas do dia a dia com amigos ou colegas.

A Teoria do Framing, de Erving Goffman, permite aprofundar esta análise. Trata-se do enquadramento: das lentes através das quais a informação é apresentada. A seleção de palavras, imagens, fontes e contextos define o sentido atribuído à notícia. O framing orienta a perceção, mesmo quando se proclama neutralidade.

Veja-se a peça publicada pela Agência Lusa em 2022: “Maçãs e peras portuguesas entre frutas com mais pesticidas, revela estudo europeu”. A construção da manchete e a linguagem usada, cocktails químicos, fruta contaminada, doenças graves, induzem uma perceção de ameaça. O enquadramento é alarmista.

A notícia omite se os níveis detetados estão ou não dentro dos limites legais da União Europeia (UE). Também não esclarece se se trata de casos pontuais ou representativos. Em 2022, 96% dos produtos agrícolas europeus estavam dentro dos limites permitidos. O silêncio sobre estes dados distorce a perceção pública.

Além disso, a escolha de uma única fonte, uma organização ambiental, sem confronto com outras perspetivas consolida um enquadramento enviesado. A ausência de pluralismo debilita o pensamento crítico e fomenta leituras unilaterais.

O B-RURAL é Una iniciativa dinamizada pela CONSULAI, com o apoio de várias associações setoriais, que tem como objetivo promover a comunicação eficaz e estratégica da agricultura e da floresta. Para que esta missão seja bem-sucedida, é fundamental compreender como se formam as perceções e atuar sobre esse processo de forma consciente.

  • A perceção é mediada e exige presença ativa. A maioria da população não vive o setor agrícola ou florestal de forma direta. As suas opiniões constroem-se a partir do que lê, ouve e comenta. Quando o setor está ausente desses espaços, a narrativa é contada por outros, muitas vezes com agendas, ângulos ou desconhecimento.

  • O conteúdo deve entrar pela porta certa. As pessoas não procuram, de forma espontânea, notícias sobre agricultura ou floresta, mas interessam-se por política, saúde, ambiente, economia ou alimentação. É nesses temas que o setor deve surgir, com relevância e pertinência.

  • O enquadramento é tão decisivo quanto o conteúdo. As palavras escolhidas, as imagens utilizadas, as fontes citadas e o tom adotado moldam profundamente a perceção coletiva.

O B-RURAL é uma oportunidade concreta para reforçar a presença, a relevância e a legitimidade da agricultura e da floresta no espaço público. Contar bem a história destes setores é, hoje, uma forma de os proteger e projetar no futuro.