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1 de marzo de 2026

Menos mano de obra y más valor: cómo ha cambiado el trabajo en la agricultura portuguesa

Lourenço Carvalho

Nas últimas décadas, o trabalho agrícola em Portugal tem acompanhado a tendência europeia de redução do peso do emprego no setor, refletindo uma transformação estrutural profunda. Em 2023, a agricultura representava cerca de 5,2% do emprego nacional, um valor acima da média da União Europeia (UE), colocando Portugal numa posição intermédia entre os países com menor expressão agrícola da Europa Ocidental e os Estados-Membros do Leste, onde o setor continua a empregar uma parcela significativa da força de trabalho.

Esta redução do emprego ocorre em paralelo com um forte aumento da produtividade do trabalho agrícola. Em cerca de 30 anos, o valor gerado por Unidade de Trabalho Anual (UTA) mais do que duplicou, evidenciando uma relação clara: menos mão de obra, mais valor. A mecanização e modernização tecnológica, a irrigação, a especialização produtiva e uma gestão empresarial mais profissional permitiram manter, e até reforçar, o Valor Acrescentado Bruto (VAB) do setor, apesar da queda acentuada do volume total de trabalho.

Ao mesmo tempo, observa-se uma reorganização do emprego agrícola. Após décadas de declínio, o número de pessoas ao serviço estabilizou e registou um ligeiro crescimento desde 2015, refletindo maior formalização, aumento do trabalho assalariado e expansão de explorações empresariais mais estruturadas. Persistem, no entanto, microempresas como forma predominante, embora cresça o peso relativo das médias e grandes explorações, sobretudo em fileiras orientadas para exportação e mercados internacionais.

Esta evolução tem uma expressão territorial muito desigual. Regiões como o Alentejo e Trás-os-Montes continuam a apresentar um peso elevado do emprego agrícola, enquanto em muitos territórios do Norte e Centro predomina uma agricultura familiar fragmentada. Concelhos como Odemira destacam-se pela elevada dependência do trabalho agrícola, ilustrando a coexistência de modelos produtivos distintos, intensivos, empresariais e familiares, dentro do mesmo setor.

Um dos traços mais marcantes desta transformação é a crescente dependência de trabalhadores estrangeiros. Em termos relativos, a agricultura tornou-se um dos setores com maior proporção de mão de obra imigrante, representando mais de 40% do total em 2023, um aumento muito significativo face a 2014. Embora o número absoluto de trabalhadores estrangeiros seja inferior ao de setores como a construção ou a restauração, a sua importância é estrutural: sem esta mão de obra, muitas explorações não conseguiriam assegurar a continuidade das campanhas agrícolas.

A agricultura distingue-se também pela origem extracomunitária da sua mão de obra estrangeira, com forte predominância de trabalhadores oriundos da Ásia, nomeadamente do Nepal, Índia e Bangladesh. Este padrão reflete a natureza mais sazonal, exigente e intensiva do trabalho agrícola, contrastando com outros setores da economia, onde predominam fluxos migratórios europeus e lusófonos.

Apesar da modernização produtiva, o setor enfrenta um desafio crítico ao nível das qualificações. A agricultura continua a apresentar os níveis mais baixos de escolaridade formal da economia portuguesa, com mais de 80% dos trabalhadores nacionais a possuir apenas o ensino básico. Paradoxalmente, os trabalhadores estrangeiros revelam, em média, níveis de escolaridade superiores aos dos nacionais, configurando uma reserva de competências importante, mas difícil de reter face à concorrência de outros setores.

A análise das condições de trabalho e da produtividade do trabalho agrícola revela que a agricultura portuguesa se encontra numa fase avançada de reconfiguração estrutural, em que a criação de valor passou a depender menos da quantidade de trabalho e mais da sua qualidade, organização e especialização.

A substituição progressiva da mão de obra familiar, a valorização das qualificações, a mecanização e a diferenciação entre fileiras explicam simultaneamente o aumento da produtividade e as novas pressões sobre o mercado de trabalho agrícola.

Um dos eixos centrais desta transformação é o declínio acentuado da mão de obra familiar, que perdeu mais de metade do seu peso nas últimas décadas. O envelhecimento dos produtores, a fraca renovação geracional e a crescente complexidade técnica tornaram o modelo familiar tradicional estruturalmente insuficiente. Em paralelo, observa-se a ascensão do trabalho assalariado, que em 2023 representava cerca de 40% do volume total de trabalho agrícola, refletindo a transição para modelos mais empresariais, com vínculos formais, maior planeamento operacional e recurso a trabalho permanente, eventual e a serviços externos.

A profissionalização do trabalho traduziu-se igualmente nas condições remuneratórias.

Os salários agrícolas valorizaram mais de 50% na última década, crescendo a um ritmo superior ao da economia nacional, embora partindo de uma base historicamente baixa.

Esta evolução reflete uma pressão crescente sobre o fator trabalho, associada à escassez de mão de obra e à necessidade de atrair perfis mais qualificados. O ganho médio aumenta de forma clara com o nível de qualificação, evidenciando uma diferenciação crescente do rendimento em função das competências técnicas, de gestão e de operação especializada.

Em paralelo, a agricultura portuguesa registou um salto expressivo da produtividade do trabalho. Nas últimas três décadas, a produtividade mais do que duplicou, refletindo uma dissociação estrutural entre emprego e criação de valor. Apesar da redução sustentada do volume de trabalho medido em UTA, o setor conseguiu manter e, sobretudo após 2015, aumentar o Valor Acrescentado Bruto.

Este padrão confirma que a agricultura cresce hoje com menos trabalho, sustentada pela mecanização, modernização tecnológica, especialização das fileiras e modelos de gestão mais eficientes.

Contudo, estes ganhos são heterogéneos, revelando assimetrias setoriais relevantes.

Fileiras como a olivicultura moderna, a fruticultura intensiva e parte da produção animal apresentam níveis de produtividade superiores, associados a maior escala e integração tecnológica. Em contraste, setores mais dependentes de trabalho manual mantêm produtividades mais baixas. O futuro do trabalho agrícola será marcado por menos mão de obra direta, maior intensidade tecnológica e uma crescente complexidade organizacional.

A automação continuará a expandir-se, mas o verdadeiro fator crítico residirá na capacidade de integrar tecnologia, serviços especializados e talento qualificado. O agricultor do futuro será, cada vez mais, um gestor de sistemas, dados e parcerias, inserido num ecossistema interdependente onde a eficiência, a inteligência operacional e a tomada de decisão estratégica determinarão a criação de valor.

A competitividade do setor dependerá, assim, não apenas da adoção tecnológica, mas da capacidade de alinhar competências, modelos de negócio e políticas de formação com esta nova realidade estrutural.