A renovação geracional na agricultura portuguesa representou, em 2024, um dos desafios estruturais mais discutidos no setor, dado o envelhecimento da população agrícola e o abandono progressivo das zonas rurais. Tendo em conta este contexto, existe uma necessidade de entender os fatores que influenciam a instalação e a sustentabilidade dos jovens na atividade agrícola.
A PAC da União Europeia define um conjunto de objetivos estratégicos para garantir a sustentabilidade e a competitividade do setor agrícola. Em Portugal, o quadro comunitário em vigor é o Plano Estratégico da Política Agrícola Comum (PEPAC) 2023-2027 e vem concretizar essas diretrizes, reunindo as medidas de apoio ao setor e assegurando o financiamento através do Fundo Europeu Agrícola de Garantia (FEAGA) e do Fundo Europeu Agrícola
de Desenvolvimento Rural (FEADER). Estas medidas incluem pagamentos diretos, apoios setoriais e instrumentos de desenvolvimento rural, essenciais para a modernização das explorações e para a valorização das áreas rurais.
O PEPAC 2023-2027 vem desempenhar um papel crucial na renovação do setor agrícola, com especial foco no apoio aos jovens agricultores. Para garantir a viabilidade e a sustentabilidade das explorações, o plano incentiva investimentos em ativos físicos, tangíveis e intangíveis, fundamentais para aumentar a produção, criar valor e melhorar a qualidade dos produtos agrícolas. Estes apoios abrangem desde a aquisição e instalação de máquinas e equipamentos, até à construção de infraestruturas, melhoramentos fundiários, plantações e sistemas de rega. Além disso, promove a adoção de métodos e produtos inovadores, incentivando a modernização e a melhoria do desempenho ambiental das explorações, assegurando assim um setor mais competitivo e resiliente.
O novo quadro estratégico sucede ao Programa de Desenvolvimento Rural (PDR 2020), que representou um marco importante no apoio à instalação de jovens agricultores e no financiamento de investimentos para as suas explorações. No que se refere ao prémio à instalação de jovens agricultores, foram programados mais de 134 milhões de euros em despesa pública, com um total de 122 milhões de euros pagos aos beneficiários, resultando numa taxa de execução de 91%.
Quanto à linha de investimento nas explorações agrícolas dos jovens agricultores, os compromissos assumidos ultrapassaram em 15% a dotação inicial, atingindo um montante contratado de 146,4 milhões de euros, indicando uma forte procura pelos apoios. Contudo, a taxa de execução encontra-se nos 71%, com 87,7 milhões de euros efetivamente pagos. Este desfasamento está associado a vários fatores como obstáculos administrativos, dificuldades na obtenção de cofinanciamento por parte dos agricultores ou constrangimentos no tempo de implementação dos projetos. De realçar ainda que foi um período marcado por um cenário pandémico, que também teve a sua influência na execução dos investimentos.
Efetivamente, do ponto de vista do consultor, o PDR 2020, representou um avanço no apoio aos jovens agricultores, mas também revelou desafios significativos que impactaram a sua execução e eficácia. Uma das dificuldades centrais esteve na limitação do montante máximo elegível que prejudicou a concretização de projetos mais ambiciosos, ao passo que alterações e reforço de exigências nas regras e critérios de análise das candidaturas ao longo do quadro criaram instabilidade e dificultaram a previsibilidade dos investimentos.
Adicionalmente, o facto de se iniciarem projetos sem uma ideia clara do que realmente se pretende executar e sem um conhecimento aprofundado sobre a realidade da atividade agrícola, compromete a viabilidade dos mesmos. A perceção limitada sobre as exigências do setor, leva a dificuldades na gestão do negócio e na adaptação aos desafios diários. Além disso, a subestimação dos custos operacionais e a falta de um plano estruturado para o escoamento dos produtos são fatores limitantes que condicionam o sucesso do negócio.
Por outro lado, as dificuldades que afetam diretamente os jovens agricultores e a sua instalação, estão principalmente associadas à limitação de acesso à terra, à escassez de crédito adequado e à complexidade dos processos burocráticos. Além destes aspetos, a fragmentação da propriedade rural, os elevados custos de aquisição de terrenos, a falta de aposta em acompanhamento técnico especializado e, a insuficiência de formação prática são fatores que podem comprometer a sustentabilidade de muitas candidaturas.
Diante destes desafios, o PEPAC 2023-2027 pretende criar mecanismos de apoio mais eficazes, procurando simplificar processos e garantir que os fundos chegam rapidamente aos agricultores. A aprendizagem com os quadros anteriores permite ajustar a implementação dos apoios, de modo a evitar os constrangimentos que limitaram a execução de alguns investimentos.
Uma das melhorias a destacar é a introdução de custos unitários para plantações permanentes e alguns equipamentos, permitindo maior previsibilidade e transparência na avaliação dos projetos. Além disso, a possibilidade de realização de candidaturas aos apoios, ao longo de todo o ano, promove a entrada de novos projetos de forma contínua, evitando a pressão das candidaturas concentradas em períodos curtos. Outra inovação é a interoperabilidade de sistemas, que promove uma melhor coordenação entre entidades com o intuito de agilizar processos burocráticos. Numa perspetiva de melhoria contínua e face ao panorama geral, existem diversas questões com espaço para debate.
Estará a Valia Global de Operação (VGO) ajustada à heterogeneidade do nosso país? A Valia Global de Operação (VGO), que hierarquiza os projetos a beneficiar dos apoios, poderia basear-se no empenho e conhecimento técnico dos agricultores, valorizando-os através de critérios mensuráveis e justos, assegurando a viabilidade económica, social e ambiental das candidaturas. É importante o peso de cada critério estar ajustado aos diferentes contextos de forma que todas as atividades agrícolas economicamente viáveis, tenham possibilidade de beneficiar dos incentivos. Deste modo, assegura-se que o apoio chega a quem demonstra, de forma concreta, capacidade de gestão e contributo real para o setor agrícola.
Estará a exclusividade do agricultor, diretamente relacionada com o sucesso da atividade? A valorização de exclusividade na atividade agrícola levanta preocupações sobre a viabilidade e estabilidade dos projetos dos jovens agricultores, independentemente do tipo de produção. A agricultura, por si só, é uma atividade de alto risco, sujeita a fatores imprevisíveis como condições climáticas adversas e oscilações de mercado, tornando essencial que os agricultores tenham alguma flexibilidade financeira.
Impor a exclusividade como critério pode limitar as opções dos jovens, impedindo que complementem o seu rendimento com outras atividades e aumentando a vulnerabilidade dos seus projetos. Esta situação torna-se ainda mais crítica no caso das culturas permanentes, que exigem um investimento inicial elevado e apresentam um longo período até começarem a gerar retorno. Assim, condicionar a dedicação exclusiva pode, paradoxalmente, comprometer a sustentabilidade dos projetos agrícolas, ao invés de garantir o seu sucesso.
Estará a inovação a ser sustentável? A reutilização e reaproveitamento de equipamentos e maquinaria em boas condições, ao invés da aquisição exclusiva de novos, pode reduzir significativamente os custos iniciais de instalação, tornando os investimentos mais acessíveis para os jovens agricultores. Além de representar uma solução economicamente vantajosa, esta prática contribui para uma maior sustentabilidade ao prolongar a vida útil dos equipamentos, reduzindo o desperdício de recursos na atividade agrícola. No entanto, para garantir a segurança e eficiência destas soluções, seria essencial estabelecer mecanismos de certificação e avaliação do estado dos equipamentos usados, assegurando que cumprem os requisitos técnicos e ambientais exigidos. Paralelamente, poderiam ser promovidos incentivos ou linhas de apoio específicas para a aquisição de maquinaria em segunda mão, encorajando a adoção de práticas mais sustentáveis sem comprometer a produtividade das explorações.
Atualmente encontra-se aberto o segundo período de candidatura, até junho, seguido de dois períodos até ao final do ano, visando os apoios de investimentos na exploração de jovens agricultores. Estes avisos beneficiam não só projetos de menor dimensão, com percentagens de apoio até 60 % a fundo perdido, como investimentos até 2 milhões de euros com um montante máximo de apoio até 400 mil euros.
Numa nota conclusiva, convidamos à reflexão desta temática que será abordada na 11ª Edição da AGROGLOBAL, em Santarém. Pretendemos gerar um debate de ideias que poderão servir de base para a definição de políticas públicas mais eficazes e orientadas para a realidade do setor, criando condições mais favoráveis para a instalação de jovens agricultores. A implementação de estratégias bem delineadas é determinante para inverter a tendência de desertificação rural e reforçar a resiliência e competitividade da agricultura portuguesa.