No dia 22 de março, a CONSULAI fez 22 anos. Estas datas especiais são uma boa altura para olhar para trás e pensar no que aí vem. Começo pelo percurso feito. Estes 22 anos deixam-me feliz pelas pessoas que trabalham connosco, pelas relações de amizade construídas com muitos clientes e pelo valor que temos ajudado a criar no setor agrícola e agroalimentar. Esta felicidade ninguém me tira. Por isso, só desejo que os próximos 22 anos tragam o mesmo: muito trabalho, muitos clientes, muitos amigos e uma vontade constante de fazer mais e melhor. Por mim, pode não mudar nada, porque está muito bem assim.
Deixando de lado esta análise mais introspetiva, fui olhar para o que aconteceu em termos mais genéricos. A primeira ata de uma reunião estratégica da CONSULAI tem cerca de 20 anos.
A ata não contém nada de particular interesse, mas, quando a lemos hoje, há duas coisas que saltam à vista. A primeira é que errámos em muitas previsões. Entre outros tiros ao lado, planeávamos expandir para o Brasil, criar um laboratório de análises e importar equipamentos para vender em Portugal.
Não expandimos para o Brasil, embora tenhamos hoje uma atuação à escala europeia; não criámos o laboratório; e nunca importámos equipamentos. Apesar destes erros de previsão, acertámos em muitas outras decisões, e foram essas que ajudaram a construir o nosso caminho.
A segunda constatação é que passaram mais de 20 anos e parece que tudo evoluiu lentamente. Continuamos a ir ao escritório, embora já não todos os dias. Passamos grande parte do tempo em frente ao computador. Continuamos a usar telemóveis, apesar da sua evolução. Deslocamo-nos sobretudo de carro e, infelizmente, ainda temos de ser nós a conduzi-lo. Quando penso no nosso dia a dia na CONSULAI, não vejo grandes alterações de paradigma. Houve uma transformação incremental, positiva em muitos aspetos, mas o nosso modelo de trabalho e de vida continua semelhante. Olhando agora para o futuro, o exercício seria pensar no que será a CONSULAI em 2044. No entanto, parece-me impossível, ou pelo menos pouco útil, perante os atuais cenários de incerteza.
Vou, por isso, focar o argumento apenas na componente tecnológica. Em 1965, Gordon Moore, cofundador da Intel, previu que a capacidade dos circuitos integrados duplicaria aproximadamente a cada dois anos, formulação que ficou conhecida como Lei de Moore. No final de 2022, a Universidade de Stanford publicou um estudo segundo o qual esta evolução se verificou até 2012, tendo depois o desempenho computacional acelerado de forma muito significativa.
Quando se fala de tecnologia, o tema do momento é a inteligência artificial (IA). Nos últimos dois meses, tem sido difícil ter uma conversa que não acabe no ChatGPT. Não consigo antecipar neste texto todas as transformações que a IA poderá provocar no setor, mas deixo uma ideia: a capacidade tecnológica está a evoluir a um ritmo que torna qualquer previsão de longo prazo extremamente frágil. Em poucos anos, tarefas que hoje exigem tempo, conhecimento especializado e elevado poder de processamento poderão ser realizadas com uma rapidez difícil de imaginar.
Retiro daqui duas conclusões. A primeira é que o que aconteceu nos últimos 20 anos será muito diferente do que acontecerá nos próximos 20 anos. As coisas vão mudar, e vão mudar muito. A segunda é que não teremos de esperar 20 anos para sentir essa transformação. As empresas devem começar já a pensar na forma como se vão ajustar, porque os paradigmas serão diferentes e mudarão rapidamente. Pessoalmente, estou apreensivo. Na CONSULAI, felizmente, não temos muito tempo para apreensões: estamos a pensar em como poderemos participar ativamente nas mudanças que aí vêm.
Se alguém quiser saber quais serão as principais transformações da inteligência artificial no setor, pode experimentar perguntar ao ChatGPT. A resposta não será definitiva, mas talvez seja um bom ponto de partida para pensar no futuro.