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March 1st, 2026

Is the agreement with Mercosur a threat or an opportunity for Portuguese agriculture?

Pompeu Pais Dias

Durante anos, o acordo entre a União Europeia (UE) e o Mercosul tem sido enquadrado quase exclusivamente como uma ameaça, sobretudo para setores sensíveis como a carne de bovino. No entanto, uma leitura mais completa revela uma realidade mais equilibrada e, potencialmente, mais favorável para Portugal: estamos perante uma oportunidade estratégica para reforçar a competitividade e abrir mercados altamente atrativos.

Comecemos pelo ponto mais discutido. O Mercosul, com destaque para o Brasil, a maior economia do bloco, é um dos maiores produtores mundiais de carne de bovino, com custos de produção significativamente inferiores aos europeus. A abertura de quotas adicionais de importação para a UE aumenta naturalmente a pressão concorrencial sobre os produtores europeus.

Contudo, importa contextualizar. O volume adicional previsto representa uma fração reduzida da produção europeia e insere-se num mercado global, onde os preços são determinados internacionalmente. A pressão existe, mas não é estruturalmente disruptiva. A verdadeira questão não é apenas “o que entra”, mas sobretudo “o que podemos fazer sair”.

É aqui que o acordo ganha outra dimensão.

O Mercosul, e em particular o Brasil, representa um mercado de mais de 260 milhões de consumidores, com uma classe média em crescimento e uma forte afinidade cultural com Portugal. Esta proximidade é um ativo raro e pouco explorado.

Ao mesmo tempo, o Mercosul é fortemente exportador de commodities agrícolas, enquanto Produção de Carne de Bovino Mercosul a UE exporta produtos de maior valor acrescentado. Esta complementaridade cria uma oportunidade clara para países como Portugal. No caso português, o potencial é particularmente evidente em dois setores: vinho e azeite, não apenas pelo volume, mas sobretudo pelo posicionamento em valor.

A eliminação progressiva de tarifas nestes produtos representa uma mudança estrutural no acesso ao mercado, particularmente relevante no caso do Brasil, onde existiam barreiras significativas à entrada. Portugal parte com vantagens claras: qualidade reconhecida, diferenciação e uma ligação cultural única com o Brasil. Num mercado em crescimento, a redução de barreiras pode traduzir-se num aumento relevante das exportações.

Mais do que um risco, o acordo Mercosul,UE deve ser visto como um instrumento de reequilíbrio competitivo. Se, por um lado, expõe fragilidades em setores mais pressionados pelos custos, por outro abre mercados onde Portugal tem claras vantagens.

A mensagem-chave é simples: não é apenas uma ameaça, é uma oportunidade. E, para quem souber posicionar-se, pode ser uma das mais relevantes da próxima década para o setor agrícola nacional.

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