O setor agrícola opera num contexto de risco estrutural crescente. A variabilidade climática, a escassez de água e a degradação dos solos, entre outros riscos físicos, têm vindo a afetar cada vez mais a viabilidade da produção agrícola, reforçando a necessidade urgente de uma abordagem de gestão orientada para a resiliência do sistema produtivo. Paralelamente, os riscos de transição, como a evolução regulamentar, particularmente na regulação Environmental, Social and Governance (ESG), , o atual contexto geopolítico e a pressão exercida pelos mercados e pelos consumidores, tornam esta transformação não apenas inevitável, mas também estrategicamente relevante.
A sustentabilidade não pode ser encarada apenas como obrigação regulamentar ou questão de princípio moral ou ético. Também não deve ser vista apenas como um custo inevitável ou como um trade-off face à produtividade ou à rentabilidade económica. O seu verdadeiro potencial reside numa abordagem estratégica orientada para a criação de valor, em que a adoção de práticas sustentáveis contribui para melhorar a produtividade e a competitividade a curto, médio e longo prazo.
A integração de novas práticas ou abordagens mais sustentáveis, em investimento produtivo ou não produtivo, deve ser suportada por uma tomada de decisão informada, que permita avaliar impactos e resultados ao longo do tempo. Neste contexto, a monitorização deixa de ser apenas um exercício de reporte ou compliance. A recolha e o acompanhamento de indicadores relacionados com a saúde do solo, a eficiência hídrica, a estabilidade produtiva e a eficiência operacional permitem reduzir a incerteza associada à transição, gerar informação relevante para orientar escolhas de investimento, ajustar práticas e antecipar riscos.
É precisamente nesta relação entre decisão, informação e gestão do risco que o valor se cria, manifestando-se em diferentes dimensões.
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Gestão e mitigação de riscos: explorações mais resilientes ao impacto das alterações climáticas, à disponibilidade variável de recursos e à volatilidade dos mercados apresentam maior estabilidade produtiva e menor exposição a perdas inesperadas, traduzindo-se em maior previsibilidade económica.
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Eficiência operacional: a otimização do uso de fatores de produção e das operações na exploração permite reduzir custos associados à degradação de recursos naturais e melhorar o desempenho económico.
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Valorização do ativo agrícola, do produto e da empresa: empresas e explorações geridas com uma visão de médio e longo prazo tornam-se mais atrativas para novas fontes de financiamento, seguros e parcerias comerciais, e ficam melhor posicionadas face a exigências regulamentares e de mercado.
Adicionalmente, estas abordagens podem contribuir para diferenciar produtos, por exemplo, através de selos de sustentabilidade e acesso a prémios de preço, e, em alguns casos, gerar fontes de receita adicionais, como créditos de carbono, créditos de biodiversidade ou outros serviços de ecossistema.
É fundamental compreender que os desafios da sustentabilidade agrícola ultrapassam a produção primária, tendo repercussões ao longo da cadeia de valor agroalimentar.
A variabilidade produtiva, as quebras de qualidade e o aumento de custos não afetam apenas o produtor, mas também a indústria, a distribuição e o retalho. Por esta razão, é urgente encarar este desafio como coletivo, evitando concentrar o risco de transição na produção. Programas que envolvam produtores e outros membros da cadeia de valor, indústria, distribuição, entidades de financiamento ou entidades públicas, permitem construir uma abordagem proativa, alinhando incentivos e partilhando riscos e oportunidades.
O setor encontra-se, atualmente, num momento decisivo para delinear a sua estratégia de sustentabilidade, que deve ir muito para além dos créditos de carbono. O foco tem de estar na criação de resiliência, através da definição de objetivos claros, estratégias credíveis de implementação e mobilização de toda a cadeia de valor agroalimentar. Mais do que um princípio ou um objetivo ambiental e social isolado, a sustentabilidade deve afirmar-se como componente central da estratégia económica das empresas. Integrá-la de forma estruturada é um passo essencial para garantir a competitividade e a resiliência do setor num contexto de incerteza crescente.