Joana Vacas Freixa, quarta geração à frente da Herdade da Torre, assumiu a gestão da propriedade em 2024. Com formação em Gestão de Empresas pela Universidade Nova de Lisboa e experiência em consultoria empresarial, está a revitalizar uma exploração com cerca de 400 hectares, assente na cortiça, no arroz, nos cereais e na produção ovina.
Nesta entrevista, Joana Vacas Freixa partilha o percurso de regresso à agricultura, os objetivos para a Herdade da Torre e a forma como procura conciliar tradição, inovação, sustentabilidade e rigor na gestão do negócio familiar.
Vinda de uma família com tradição agrícola, mas também com formação e experiência fora do setor, como foi o processo de regressar à terra e reinventar a exploração agrícola?
Desde pequena, cresci a acompanhar o meu avô e a minha mãe na atividade agrícola da herdade e sempre tive claro que, em algum momento da minha vida, iria dedicar-me a esta atividade, que tem muito significado para mim.
O meu objetivo imediato é retomar atividades que tinham sido descontinuadas há alguns anos na herdade, em particular a atividade pecuária, melhorando as infraestruturas para que seja mais produtiva.
Encaro este regresso à terra com muita humildade e vontade de aprender, mas também usando a minha experiência profissional para questionar o status quo e procurar melhorias de forma contínua.
O projeto foi reconhecido a nível nacional e europeu pela aposta na sustentabilidade e inovação. Como se traduzem esses princípios no dia a dia?
O objetivo da nova atividade pecuária é indiscutivelmente económico. Mas a forma de retomar esta atividade implica melhorias do ponto de vista da sustentabilidade.
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Diminuir custos, através de maior proteção das pastagens, menor recurso a culturas, menor consumo de combustível e menor dependência de suplementação externa.
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Utilizar o gado como vetor de melhoria da fertilidade natural do solo.
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Valorizar o papel das árvores e da maior densidade de pastagem no balanço de carbono.
Fora do projeto de jovem agricultor, tenho previstas outras ações para prevenir e minimizar a erosão dos terrenos.
A tecnologia está considerada tanto no desenho do projeto como nas suas soluções. Consegui minimizar alguns investimentos utilizando técnicas menos comuns em Portugal, mas já presentes noutros países.
Quais foram os maiores desafios enfrentados enquanto jovem a iniciar o seu próprio projeto agrícola?
Na minha opinião, o principal desafio é que o balanço entre rentabilidade e risco deste negócio é mais desafiante do que o de muitas outras atividades. Por isso, ou há uma componente de vocação ou uma ajuda familiar, ou é difícil decidir dedicar-se a este negócio em vez de seguir profissões “típicas”, sobretudo num contexto mais urbano.
Por outro lado, serão cada vez mais necessários investimentos em capital, o que cria barreiras de entrada para os jovens. Por isso, programas e projetos como o projeto de jovem agricultor são muito relevantes.
Tendo apostado na valorização de recursos locais, como o montado de sobro ou raças autóctones como o merino preto, que importância tem preservar estas práticas tradicionais num contexto de agricultura moderna?
Na minha opinião, não sendo especialista, as paisagens do Alentejo, em particular o montado, não podem existir sem o impacto da atividade agrícola. São uma consequência da combinação entre espécies adaptadas e atividade pecuária. Sem esta atividade, o Alentejo que conhecemos deixaria de existir. Por isso, é fundamental tornar a agricultura extensiva e a atividade pecuária mais rentáveis e sustentáveis.
Num contexto de agricultura moderna, com o meu projeto pretendo aumentar a produtividade da atividade pecuária.
Que conselhos daria a outros jovens que gostariam de seguir uma carreira na agricultura, mas que ainda veem o setor como pouco atrativo ou arriscado?
Diria que comparem um dia de escritório à frente de um ecrã, num contexto urbano, com calçar umas botas e poder decidir sobre o seu próprio negócio, e que se perguntem onde está a felicidade. Nem sempre o sucesso pessoal está onde nos foi dito, mas sim onde o sentimos.
Além dos aspetos motivacionais, é fundamental que haja sempre uma planificação financeira rigorosa e realista. É necessário planear o negócio e evitar decisões irracionais.
O percurso de Joana, marcado pela valorização dos recursos locais, pela inovação e pela sustentabilidade, culminou no reconhecimento nacional e europeu com o prémio de jovem agricultora.
Este reconhecimento celebra o seu mérito e serve de inspiração para todos os jovens que procuram transformar o setor agrícola, mostrando que é possível conciliar tradição e modernidade, rentabilidade e paixão, e contribuir de forma significativa para o futuro da agricultura.